*Este texto foi escrito por um colunista do TecMundo; saiba mais no final.

De maneira curta, quase tudo. E o uso do “quase” talvez seja somente pela relação mais próxima que a Física possui com a área das exatas e da matemática, por exemplo. Mas essas duas áreas de conhecimento, física e filosofia, provavelmente possuem uma proximidade maior do que muitas pessoas imaginam.

É razoavelmente comum encontrar pessoas que se consideram interessadas, ou que acham fenômenos físicos curiosos. Isso apesar da dificuldade encontrada por muitos durante as aulas de Física no Ensino Médio. Para falar dessa dificuldade, talvez valha a pena dedicar para isso um outro texto inteiro sobre como a abordagem que a física recebe na educação básica pode acabar afastando pessoas interessadas (além de muitos outros fatores).

físicaAulas de física e matemática costumam ser desafiadoras para muitas pessoas (Shutterstock)Fonte:  Shutterstock 

Mas voltando para a questão inicial, ao contrário do que vemos com a Física, e aqui falo da Física por possuir um contato e conhecimento maior, mas o mesmo cabe para as demais ciências, a Filosofia talvez não goze da mesma valorização e interesse social. A disciplina de Filosofia no Ensino Médio sofre constantes ataques de grupos políticos que gostariam de removê-la, parcial ou completamente, do currículo escolar.

Isso constitui um grande problema, não só pela perda de uma disciplina que pode abordar diversos tópicos importantes para o desenvolvimento cidadão dos alunos (ética, lógica, entre outros), mas também pela perda da conexão que existe entre as ciências naturais como a Física, Química e Biologia, e o pensamento filosófico que influencia diretamente a maneira como essas ciências são desenvolvidas.

Em uma artigo publicado em 2018, o físico e pesquisador italiano, Carlo Rovelli, cita alguns exemplos de interações entre a Física e a Filosofia. Galileu, um dos responsáveis por demonstrar que a Terra orbita o Sol, e não o contrário, além de muitos outros feitos, baseia muitas de suas ideias no pensamento de Platão.

Além dele, tanto Isaac Newton quanto Albert Einstein, talvez os físicos mais famosos de toda a história, deixam de forma explícita em seus trabalhos que parte da inspiração para suas ideias revolucionárias não poderia existir sem o pensamento dos filósofos, antigos ou contemporâneos deles.

NewtonIlustração mostra o físico britânico Isaac Newton (Shutterstock)Fonte:  Shutterstock 

Isso serve para mostrar que o pensamento filosófico vigente em determinada época, afeta diretamente o desenvolvimento da Física. Uma das tais dificuldades para o aprendizado da Física na educação básica está na falta de se explicitar a relação entre o que está sendo ensinado com o contexto histórico e filosófico de quando tal conhecimento foi desenvolvido. Abordar esse tema nas escolas seria de grande valor, tanto para o ensino da Física quanto da Filosofia. Mas, para isso, seria necessário um movimento de valorização da Educação como um todo, que passa  pelo projeto político, estrutura das escolas e valorização dos profissionais.

Além disso, é importante que haja o entendimento e valorização por parte de governantes e população do conhecimento que as ciências humanas proporcionam. O interesse em fenômenos como buracos negros e tecnologias como a computação quântica deve vir junto com o entendimento de que o desenvolvimento desse tipo de conhecimento passa pela formulação de ideias e que tal processo deve compreender um pensar filosófico sobre a natureza do conhecimento que está sendo desenvolvido.

Rovelli argumenta, portanto, que a Física precisa da Filosofia para seu desenvolvimento e que o contrário também é verdadeiro. Se pensarmos a Filosofia como sendo a atividade de pensar sobre o pensamento em si, é evidente a ligação que esta área possui com as Ciências, uma vez que estas representam uma maneira de pensar bem específica e sistematizada que é típica da espécie humana.

Rodolfo Lima Barros Souza, professor de Física e colunista do TecMundo. É licenciado em Física e mestre em Ensino de Ciências e Matemática pela Unicamp na área de Percepção Pública da Ciência. Está presente nas redes sociais como @rodolfo.sou



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