Os fãs de survival horror com certeza devem conhecer Fatal Frame, também chamado de Project Zero, franquia de jogos de terror inspirada em antigas superstições japonesas e aclamada pela crítica como uma das melhores do gênero, junto com outros nomes famosos como Resident Evil e Silent Hill.

E hoje (04), marca o aniversário de 20 anos do lançamento da série no Ocidente, então nada mais justo do que um especial aterrorizante para comemorar o desafortunado momento em que Miku Hinasaki entrou pela primeira vez na mansão Himuro em busca de seu irmão Mafuyu, certo?

Um desenvolvimento assombroso

Talvez mais assustadora do que as tramas dos jogos da série, seja sua história de origem, inspirada nas experiências sobrenaturais vividas por um de seus criadores, o diretor Makoto Shibata.

Durante a infância, sua casa ficava próxima a uma estrada, e quando a noite caía, aparentemente a situação ficava “de outro mundo”.

“Muitas vezes eu acordava dentro do meu futon no meio da noite e havia centenas de ‘presenças’ descendo a estrada. Em vozes abafadas e sussurrantes, elas diziam coisas que eu não conseguia entender, andando lentamente, preenchendo todo o caminho. Quando chegavam à curva em frente à nossa casa, sempre desapareciam”, explicou o diretor em uma entrevista.

Com o tempo, o jovem Shibata se acostumou com essa sombria rotina noturna, passando a tentar compreender o que as vozes diziam por pura curiosidade, mas sem nunca olhar para as aparições, por ter medo de chamar a atenção e acabar sendo levado pelos espíritos. Porém, ao receber uma câmera velha e meio quebrada de seu pai, o interesse pelo sobrenatural aumentou ainda mais, trazendo uma nova dúvida: e se ele fotografasse os espíritos?

“O que aconteceria se eu usasse isso para tirar uma foto da procissão? Mesmo se eu não olhasse, no momento em que tirei a foto, essas ‘presenças’ viriam  em minha direção?”, explicou Makoto.

No fim, o medo foi maior que suas indagações, e a câmera também acabou quebrando de forma irreparável, impedindo que ele encontrasse uma resposta para suas perguntas na vida real.

E foi então que 20 anos depois, Shibata decidiu usar seus encontros macabros como o coração da trilogia original de Fatal Frame, imitando os sons emitidos pelas assombrações e os colocando nos jogos.

Além disso, uma das vivências mais marcantes para o diretor acabou sendo incorporada em Crimson Butterfly. Uma noite, após o avô sofrer uma queda séria e a família precisar levá-lo ao hospital, Makoto sozinho em seu quarto na casa silenciosa, ouviu passos subindo as escadas e parando na frente da porta.

Todo o horror dessa memória foi então repassado no segundo jogo para as gêmeas Mayu e Mio, perseguidas por um fantasma vingativo e obrigadas a se esconder até a criatura desaparecer.

Eu vejo gente morta no trabalho

Para o azar da equipe de desenvolvimento, os contos sobrenaturais não pararam por aí.

Vários membros adicionaram suas próprias experiências bizarras no escritório para a lista de horrores, como dois colaboradores que ficaram até tarde em dias separados ouvindo sons de teclado que paravam quando iam investigar e recomeçavam assim que voltavam para suas mesas, e uma dubladora que ouviu batidas insistentes vindas da porta de uma cabine de gravação que deveria ser à prova de som.

No final de 2002, Shibata teve mais uma surpresa para ser adicionada a esta lista, quando encontrou o espírito de uma mulher de roupas brancas e cabelos escuros deitada de bruços no futon em seu quarto. Desesperado, ele tentou acender a luz, que obviamente não ligou, e ficou ali paralisado assistindo à figura imóvel, até finalmente conseguir gritar de frustração e ela finalmente desaparecer.

Enquanto vários indivíduos decidiram apenas se acostumar com as ocorrências, alguns mais supersticiosos passaram a carregar amuletos para se protegerem, e todo esse pavor foi adicionado a Fatal Frame III: The Tormented, com os barulhos ouvidos na realidade sendo reproduzidos o mais fielmente possível pelos designers de som, e alguns até gravados diretamente do local e apresentados no game.

Como se os fatos sobrenaturais no trabalho não fossem o bastante, o time também teve que visitar diversos pontos considerados assombrados no Japão para pesquisa de materiais para o terceiro título da série, e depois de tantas ocorrências bizarras ao longo dos anos, decidiram fazer um ritual de purificação.

Infelizmente, o tiro saiu pela culatra, com os fenômenos aumentando depois da cerimônia, mas para a sorte de todos os fãs de terror, eles não iam deixar que uns fantasminhas atrapalhassem o desenvolvimento, e o game foi concluído com sucesso.

Talvez todos os relatos não tenham passado de estresse acumulado por longas horas em projetos cheios de conteúdos assustadores, mas uma coisa podemos ter certeza: reais ou não, essas experiências serviram para refinar o nível de tensão da franquia, trazendo momentos de puro pânico e desespero para os jogadores.

Mecânica inovadora

Fugindo da abordagem tradicional de outros survival horrors, Fatal Frame foi o primeiro a trazer uma câmera como arma e ferramenta de investigação, e que pode ser melhorada ao longo do gameplay para se tornar um potente instrumento de exorcismo.

Essa mecânica realmente ajuda a aumentar o nível de medo dos jogadores, afinal é preciso ficar cara a cara com os fantasmas e manter a calma para achar o momento ideal para tirar as fotos e causar dano, caso contrário, as consequências podem ser fatais…

Sorria, você está sendo exorcizado

Agora que já abordamos as origens macabras, é hora de lembrar um pouquinho de todas as histórias sinistras e protagonistas desamparadas que elas renderam.

Fatal Frame

Em 1986, Mafuyu Hinasaki some misteriosamente após decidir partir para a assombrada Mansão Himuro em busca do famoso escritor Junsei Takamine, que desapareceu com seus assistentes no local.

Quando seu irmão também não volta, Miku Hinasaki vai ao casarão para procurá-lo, acabando presa em uma armadilha sobrenatural e vítima de uma maldição, com marcas de cordas aparecendo em seus pulsos e tornozelos.

Sozinha e contando apenas com a Camera Obscura para se defender dos espíritos, a jovem precisa descobrir a história por trás do macabro Ritual de Estrangulamento e da força das trevas chamada Malícia, encontrar Mafuyu e fugir da mansão para sobreviver. Mas os moradores de Himuro não parecem dispostos a deixá-la partir…

Fatal Frame foi lançado originalmente para PlayStation 2, recebendo uma versão para Xbox pouco depois que continha mais conteúdos, como: novos documentos, dificuldade, chefe e até outro final.

Fatal Frame II: Crimson Butterfly

Ocorrendo canonicamente dois anos após os eventos de seu antecessor, o segundo jogo se passa na região fictícia de Minakami no Japão, com uma cidade abandonada após uma tragédia sobrenatural sendo o palco dos grandes horrores.

Mio e Mayu Amakura são gêmeas que decidem visitar pela última vez seu local favorito de brincadeiras na infância, antes que ele desapareça com a construção de uma nova represa.

Porém, o passeio inocente rapidamente se torna um pesadelo quando Mayu se vê compelida a seguir uma estranha borboleta vermelha, com Mio em seu encalço, preocupada com a segurança da irmã. Logo, as duas se veem presas em uma vila onde é sempre noite, e descobrem que a lenda urbana sobre aqueles que se perdem na floresta de Minakami é real.

Separadas por eventos sobrenaturais, cabe a Mio encontrar sua irmã e lidar com as almas torturadas dos antigos habitantes do vilarejo, determinados a completar o Ritual de Sacrifício Carmesim utilizando as gêmeas para poderem se libertar da horripilante maldição que os prende ali.

Crimson Butterfly passou a ser desenvolvido logo após a conclusão do primeiro game, e como muitos tiveram medo de concluir a aventura de Miku, a Tecmo decidiu tornar essa história ainda mais interessante para garantir que os jogadores fossem até o final, e mesmo assim ele foi considerado um dos títulos mais assustadores já feitos.

Em 2004, o título também recebeu um port para Xbox incluindo visuais e áudios aprimorados e novos modos de jogo. E em 2012, foi lançado sua versão remake para Wii, intitulada Project Zero 2: Wii Edition.

Fatal Frame III: The Tormented

Rei Kurosawa é uma fotógrafa freelancer sofrendo pela perda morte do noivo há dois meses em um acidente de carro pelo qual ela foi responsável.

Ao ser chamada para um trabalho na abandonada mansão Kuze, acaba avistando brevemente a aparição de seu amado, e desde esse estranho evento, a moça passa a ter pesadelos nos quais vaga pelo casarão abandonado durante uma noite de forte nevasca, perseguida por espíritos torturados e uma fantasma tatuada, acordando apenas para descobrir que uma sombria tatuagem está espalhando lentamente pelo seu corpo a cada sonho que tem com o local.

Descobrindo a verdade sobre a estranha Mansão do Sono através de notas enviadas por Kei Amakura, tio das gêmeas de Crimson Butterfly que está tentando salvar sua sobrinha Mio, Rei precisa encontrar uma forma de salvar a si mesma e sua assistente, Miku Hinasaki — a protagonista do primeiro jogo —  da terrível maldição que assola as duas e torna as linhas entre sonho e realidade cada vez mais tênues nesta jornada sobrenatural sobre a superação do luto e culpa do sobrevivente.

Fatal Frame: Mask of the Lunar Eclipse

Em 1970, cinco meninas são sequestradas do hospital psiquiátrico na Ilha Rougetsu pelo serial killer Yo Haibara. As garotas acabam sendo encontradas em uma caverna embaixo da instalação médica pelo detetive Choshiro Kirishima, porém, sem memórias do que ocorreu ali.

Oito anos depois, duas das jovens acabam falecendo de forma misteriosa, levando outras sobreviventes, Misaki Aso e Madoka Tsukimori, a voltarem para ilha em busca de respostas sobre o passado e sobre a estranha e fatal doença que parece afetar suas lembranças e identidade.

Preocupada com as amigas, Ruka Minazuki também retorna para Rougetsu, descobrindo que o aparente local vazio está tomado por fantasmas hostis, ligados à sua família e a um estranho ritual realizado durante o eclipse lunar.

Mesmo sendo lançado oficialmente apenas no território japonês, Mask of the Lunar Eclipse recebeu críticas extremamente favoráveis, e se tornou o título mais vendido da série.

Fatal Frame: Maiden of Black Water

O quinto jogo da série se passa no Monte Hikami, que possui uma reputação macabra pela quantidade de mortes e ocorrências sobrenaturais ligadas aos corpos d’água em sua extensão.

A trama gira em torno de três protagonistas: Yuri Kozukata, uma jovem capaz de cruzar o véu entre o mundo real e o das sombras devido à sua linhagem; Ren Hojo, amigo de Yuri e um autor realizando pesquisas para seu novo livro; e Miu Hinasaki, filha da protagonista do primeiro Fatal Frame, que embarca nesta jornada assombrada em busca de sua mãe.

Seguindo a fórmula da franquia, a história envolve um sinistro ritual que deu obviamente  muito errado, amaldiçoando o monte e o tornando um ímã para suicídios e outras tragédias, e cabe aos personagens encontrar uma forma de lidar com as forças malignas e evitar se tornar mais uma casualidade do local.

Maiden of Black Water foi lançado no Ocidente em 2015 para Wii U, recebendo uma versão remaster em 2021 para Nintendo Switch, PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series X/S e PC.

Spirit Camera: The Cursed Memoir

Este spin-off lançado em 2012 para o Nintendo 3DS, traz como figura central a jovem Maya, presa em uma casa assombrada controlada por uma mulher misteriosa de preto, precisando encontrar o amaldiçoado Diary of Faces para finalmente conseguir escapar.

Spirit Camera utiliza os recursos do portátil, como os sensores giroscópicos e câmeras 3D, para criar uma experiência assustadora, misturando tanto o cenário de uma antiga mansão japonesa como o ambiente ao redor do próprio jogador, que precisa se mover constantemente com o 3DS para combater os espíritos tentando atacá-lo.

Curiosidades

Além dos fatos curiosos envolvidos com o desenvolvimento da franquia, existem outros detalhes que são bem interessantes.

Jovem demais para ser amaldiçoada

Lidar com fantasmas pode deixar qualquer um se sentindo despreparado, afinal, não dá para enfrentá-los com uma faca ou arma de fogo. Mas aparentemente, existe uma idade mínima aqui no Ocidente para maldições e batalhas espirituais.

Quando o primeiro Fatal Frame foi lançado no Japão, Miku Hinasaki era uma colegial de 17 anos, que se aventurou pela Mansão Himuro com seu uniforme escolar. Porém, na versão em inglês, a Tecmo decidiu alterar isso, tornando-a uma estudante universitária e alterando suas roupas e rosto para que parecesse mais velha.

Então, não se esqueçam de apresentar sua identidade na próxima vez para garantir que podem ser perseguidos por espíritos malignos, certo?

Baseados em fatos não tão reais

Sempre que a frase “baseado em fatos reais” aparece no começo de algum conteúdo de terror, já causa um frio na espinha, nos levando a pensar nos momentos terríveis que os desafortunados envolvidos na história podem ter vivido.

Porém, quando esta declaração ousada serviu como marketing para o lançamento de Fatal Frame fora do território japonês, a Tecmo teve algumas explicações para dar, pois ninguém sabia exatamente quais partes eram as verdadeiras. Os rituais? O casarão? Uma jovem assombrada procurando o irmão?

Bem, acontece que a temida Mansão Himuro realmente é uma lenda urbana japonesa, contando com várias versões, mas todas com um ponto em comum: assassinatos horríveis aconteceram ali e jovens eram sacrificadas a cada 50 anos como parte de um ritual para evitar má sorte.

Os próprios produtores confirmaram depois que o título não tinha nenhuma relação com a realidade, quer dizer, tirando todos os casos paranormais envolvendo Shibata e sua equipe de desenvolvimento, certo?



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