Muito se fala hoje sobre representatividade. E quase todo mundo concorda: sim, é necessário que todo mundo esteja representado entre os diversos setores da vida – incluindo, aqui, as séries. Mas o que essa palavra significa, afinal? Será que o esforço de certas emissoras em incluir personagens diferentes em seus episódios (vide, por exemplo, o que foi feito em And just like that, spin-off de Sex and the city) é suficiente para que este ideal seja cumprido?

Essa discussão me faz lembrar da ótima Master of none, série da Netflix escrita e protagonizada pelo ator indiano Aziz Ansari. Em um episódio chamado “Indians on TV”, o personagem de Ansari, Dev Shaw faz um teste para um papel em uma série. Ele pleiteia a vaga do personagem indiano. Chegando no local do teste, encontra um amigo seu, também indiano, que também é candidato ao papel. Ambos se saem bem, o que é, segundo Dev Shaw, o que é um problema: se uma série colocar um personagem indiano no elenco, ela será “conectada”, “politicamente correta”. Mas se ela contratar dois atores indianos, ela será uma “série sobre indianos”.

Por isso, a representatividade, por vezes, acaba virando apenas um recurso para “cumprir uma meta”. Mas não basta nada diversificar personagens sem aprofundá-los, ou pensar só no elenco sem abrir espaço para grupos minoritários na própria produção dos programas.

Representatividade em uma série sobre adolescentes

(Fonte: FX)(Fonte: FX)Fonte:  FX 

Trago esta introdução para falar de uma nova série de humor maravilhosa do canal FX: Reservation Dogs, obra de dois showrunners, o neozelandês Taika Waititi (de What we do in the shadows e diretor de Jojo Rabbit) e o nativo-americano Sterlin Harjo. Esta pequena pérola, disponível também no Hulu, é um exemplo de narrativa que poderia se chamar de coming of age, termo que costuma designar histórias que focam no processo de amadurecimento de personagens jovens.

Em outras palavras, Reservation Dogs é uma série adolescente. Mas o grupo retratado aqui são quatro amigos nativo-americanos (expressão que designa os povos originários nos Estados Unidos) que vivem em uma reserva indígena pobre no interior do Oklahoma e sonham em juntar dinheiro para fugir para a Califórnia. Como tentam concretizar isso? Fazendo roubos na comunidade – como, por exemplo, furtando um caminhão cheio de salgadinhos que tentam revender, ou pegando bifes no mercado para fazer tortas para vender.

Sim, esta é uma série sobre uma “gangue”, mas é muito mais que isso. Tal como Atlanta, a premiadíssima série de Donald Glover, também produzida na FX, os personagens são quase como “desculpas” para fazer comentários muito profundos sobre a situação precária que os Estados Unidos, esta chamada terra de todas as oportunidades, reservaram a todo e qualquer grupo minoritário, como os negros e os indígenas. É, sobretudo, um contexto de desesperança e de poucas chances de ascensão que não sejam, por exemplo, o de tentar a fama (caso do pai de um dos adolescentes, em Reservation Dogs, que é um rapper indígena desempregado um tanto hilário, ou dos rappers onipresentes em Atlanta) ou então flertar com a contravenção.

Mas veja: tanto Reservation Dogs e Atlanta não são séries baixo astral, de forma alguma. Na verdade, é quase o oposto: a narrativa agridoce das duas, amarradas por doses cavalares de deboche e de roteiros muito bem escritos, faz com ambas se tornem grandes achados nos catálogos de streaming. Em Reservation Dogs, há uma espécie de tom afetuoso em torno dos quatro protagonistas – Bear, Cheese, Elora e Willie – vividos por D’Pharaoh Woon-A-Tai, Devery Jacobs, Lane Factor e Pauline Alexis, todos atores nativo-americanos, assim como praticamente todo o resto do elenco e da equipe de produção.

Um caldo de referências

(Fonte: FX)(Fonte: FX)Fonte:  FX 

Outro fator importante é que Reservation Dogs não quer apresentar qualquer olhar estereotipado acerca dos povos originários americanos. O viés da história contada aqui nitidamente se afasta do fetiche idealizador de um ponto de vista forasteiro. Por isso, não espere ver sujeitos entocados em tribos, alienados das modernidades do mundo, ou arrasados pela perda de suas raízes, mas sim adolescentes conectados na internet e nos referenciais que os jovens de sua idade compartilham. Eles ouvem rap, usam camisetas de banda, e que compartilham uma obsessão por Tarantino – daí a referência no título ao filme Cães de Aluguel, cujo nome original é Reservoir Dogs.

Mas também espere ver elementos da tradição dos povos nativos entremeados na história contada aqui. A grande sacada da série, portanto, é conseguir criar personagens críveis, com identidades multifacetadas e imbricadas pelas tantas matrizes que perpassam as suas vidas. Os atores (adoráveis, por sinal) representam, em cada um dos papéis, alguém que precisa o tempo todo conviver com o choque entre o antigo e o novo, entre o local e o global.

(Fonte: FX)(Fonte: FX)Fonte:  FX 

Isto é desdobrado ao longo dos episódios da série. Em um deles, a mãe de Bear (que é uma mãe solo – o pai foi buscar uma vida na fama e abandonou o filho) se envolve com um homem branco que tem uma espécie de tara por indígenas, e acaba descobrindo que ele tem tatuada no braço uma bandeira dos estados confederados no sul dos Estados Unidos, um signo de racistas e supremacistas brancos. Em outro (que considero o melhor episódio da temporada), os adolescentes vão atrás do tio Brownie, parente de Elora, um homem grandalhão que vive recluso e tenta sobreviver da venda da maconha “raiz” (que ele chama de “o remédio do criador”) que enterrou no seu quintal há muitos anos. Ele se orgulha de “viver da terra” – mas sua casa é repleta de pacotes vazios de junk food.

Ainda que a série opere a partir de uma trama interligada e sequencial, um dos grandes trunfos do roteiro dessa produção é que os episódios, de alguma forma, funcionam de maneira isolada, quase como se fossem pequenos curtas-metragens. Esta é uma tendência observada em outras séries recentes, como na própria Atlanta e em Master of None, citadas neste texto.

Este recurso possibilita que alguns personagens sejam explorados e que nem sempre o foco principal esteja nos protagonistas. Ou, ainda, traz a chance de que personagens completamente aleatórios sejam jogados na história para tecer algum tipo de comentário. Observe, por exemplo, a riqueza do episódio que se inicia com um casal de idosos brancos discutindo no carro: ele fala mal dos indígenas, que seriam preguiçosos e encostados, enquanto ela se posiciona duramente, e diz que tem uma porcentagem de sangue originário. Mas em seguida algo acontece com eles que acaba por fazer uma crítica ácida sobre o papel dos brancos dentro da luta das minorias.

Há fatores que amarram todas as tramas, em um recurso poético bastante interessante. Um destes elementos é a visão que Bear tem de um nativo-americano meio fora do peso que aparece para ele de tempos em tempos montado em um cavalo (um clichê máximo dos filmes americanos com indígenas). Ele se apresenta como “Guerreiro desconhecido” e tem uma função de operar como um mentor ancestral do adolescente – pouco importa que ele seja bem atrapalhado e quase tudo que fala não faça qualquer sentido.

Reservation Dogs, uma das melhores coisas produzidas pela TV nos últimos anos, é pura poesia juvenil. Não deixe de ver.



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