*Este texto foi escrito por um colunista do TecMundo; saiba mais no final.

Antes de explicar o título, podemos fazer uma breve revisão sobre o que se acredita que vem a ser a tal da matéria escura. Primeiramente, que um corpo com massa atrai outro corpo com massa é sabido desde a Lei da Gravitação Universal de Isaac Newton. Em escala cósmica, essa atração entre corpos influencia diretamente na maneira como os planetas, sistemas estelares e galáxias se movem pelo universo.

Porém, o movimento das galáxias é muito mais complexo do que a Lei da Gravitação pode descrever. Devemos também levar em conta a Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein que, de maneira simplificada, apresenta uma “explicação melhor” sobre a gravidade exercida entre planetas, estrelas e galáxias e, consequentemente, é mais confiável para a previsão desses movimentos. Ainda assim, há coisas mais complexas no universo que não são contempladas na teoria de Einstein.

Em sistemas como o nosso Sistema Solar, quanto mais perto um planeta está do Sol, mais rapidamente ele se desloca pelo espaço, ou seja, o tempo que Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol, leva para dar uma volta ao redor do mesmo, é bem menor do que o tempo que a Terra leva para completar a mesma volta. Esse fenômeno é sabido e previsto desde o século XVII com as Leis de Kepler.

Porém, quando tratamos de galáxias, como a nossa Via Láctea, que também possuem um centro orbitado por estrelas (onde cada estrela é capaz de possuir seu próprio sistema planetário), não acontece o mesmo. Isto é, as estrelas que encontram-se mais distantes do centro das galáxias estão percorrendo o espaço aproximadamente na mesma velocidade que as estrelas mais centrais. É como se houvesse algo ajudando essas estrelas a se deslocar mais rapidamente!

buraco negro(Shutterstock)Fonte:  Shutterstock 

Disso, surge a hipótese da matéria escura, que consistiria em algo que não interage com a radiação eletromagnética (luz) mas interage gravitacionalmente com as estrelas e planetas. Uma das consequências dessa interação seria justamente a velocidade acima da esperada para estrelas distantes dos centros das galáxias, o que foi observado pela primeira vez perto da década de 1930.

Entretanto, a existência dessa matéria deveria ser detectada para que se comprovasse a atração gravitacional que ela exerce nas estrelas. Algo que, pelo próprio nome escolhido e para a surpresa de ninguém, não é nada simples. Em 1997 e, posteriormente, em 2013, utilizando detectores DAMA, que são montados especialmente para a busca da matéria escura (em inglês, dark matter), cientistas afirmaram ter conseguido medir partículas de matéria escura passando pela Terra, conforme ela se desloca pelo espaço no momento em que sua velocidade é a maior possível.

Os resultados dos detectores DAMA foram, ao mesmo tempo, animadores, por se tratarem não só de um avanço tecnológico como também por se tratarem da confirmação de uma hipótese antiga, e também controversos, uma vez que outros cientistas não conseguiram realizar as mesmas medições de matéria escura.

Até o momento, por mais controversos que fossem, esses eram os melhores resultados obtidos para a detecção de matéria escura. Porém, uma reportagem da revista Science, de novembro de 2021, alega que um novo e mais preciso detector, chamado COSINE, não detecta nenhum dos sinais que foram alegados pelos cientistas responsáveis dos projetos DAMA.

O detector de matéria escura COSINE.
O detector de matéria escura COSINE (Yale/Divulgação)

O impacto dessa não detecção de matéria escura, pode deixar essa hipótese ainda mais obscura, já que, ou ainda não temos tecnologia o bastante ou talvez estejamos buscando respostas nos lugares errados. Entretanto, em Ciência, não podemos descartar nenhum fato. Na situação de se confirmar que os sinais medidos pelo projeto DAMA não estão mesmo relacionados à matéria escura, cabe sempre questionar: o que estava sendo captado?

Rodolfo Lima Barros Souza, professor de Física e colunista do TecMundo. É licenciado em Física e mestre em Ensino de Ciências e Matemática pela Unicamp na área de Percepção Pública da Ciência. Está presente nas redes sociais como @rodolfo.sou



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