Em março de 2021, a internet se impressionou com a venda de uma obra de arte — ou melhor, um conjunto de obras. Chamada “Everydays: The First 5000 Days”, algo como “Cotidianos: Os Primeiros 5000 Dias” em tradução livre para o português, a peça encontrou um novo dono pelo estonteante preço de US$ 69,7 milhões, ou R$ 345,5 milhões em conversão direta. Seu maior diferencial, surpreendentemente, é o formato: inteiramente digital, em NFT, acrônimo para os infames tokens não-fungíveis.

Por trás da fama e da controvérsia na venda da obra, há um conjunto de histórias contadas pelo seu peculiar criador, Beeple. Longe das telas, o artista e designer gráfico chama-se Mike Winkelmann, que iniciou o projeto “Everydays” há mais de uma década e desenvolveu sua peça mais valiosa durante 14 longos anos.

Conheça mais sobre Beeple e os bastidores de sua escalada até o renome internacional no artigo abaixo, elaborado pelo TecMundo!

Os Primeiros 5000 Dias

Embora atue como artista e designer gráfico há mais de vinte anos, Winkelmann somente deu início ao projeto “Everydays” em maio de 2007, na época, ainda utilizando meios tradicionais. Porém, não demorou muito para ele migrasse para outros formatos de criação, variando estilos, ferramentas e habilidades entre ciclos anuais para a produção das peças — que ocorria diariamente, sem falhas, mesmo em datas especiais.

Segundo Winkelmann, as peças ainda são criadas e postadas no mesmo dia, uma frequência constante e incomum que o promoveu para oportunidades profissionais únicas durante seus primeiros anos, como as parcerias com a Nike, a Louis Vuitton e Apple. Mais recentemente, o artista consolidaria seu estilo nas animações distópicas e provocativas, que incluem por vezes críticas à sociedade moderna e figuras famosas.

Precursor das NFTs

Mesmo com boas empreitadas e uma forte base de seguidores, os meios tradicionais de venda não eram exatamente lucrativos para Winkelmann — até outubro de 2020, por exemplo, sua venda mais alta alcançou os US$ 100, cerca de R$ 500 em conversão direta.

Nesse contexto, ele seria eventualmente apresentado à tecnologia dos NFTs e faria sua primeira venda significativa em novembro de 2020. Chamada “Crossroad”, a peça foi arrematada por US$ 66.666,66, sendo revendida em fevereiro de 2021 por US$ 6,6 milhões — e garantindo uma comissão de 10% para seu criador. Tratando-se de uma animação, a obra mudaria conforme o resultado das eleições para a presidência dos Estados Unidos.

Leilão histórico

Estelar, a breve trajetória garantiu a Beeple um renome inédito no nicho, contribuindo diretamente na popularização deste uso para a tecnologia. Além disso, o feito também assegurou reputação suficiente para chamar a atenção da empresa Christie’s, especializada em leilões há mais de 250 anos, que realizaria a venda da obra “The First 5000 Days” em março de 2021 — sendo a primeira deste tipo, inteiramente digital.

Com lances iniciados em US$ 100, o leilão foi encerrado após 14 dias pelo valor de US$ 69,7 milhões, proposto pelo fundo Metapurse. Em apenas seis meses, após 14 anos de produção diária, Beeple tornou-se o terceiro artista mais valioso no mundo ainda em vida, ficando para atrás apenas de Jeff Koons e David Hockney, graças à repercussão das NFTs.

Os próximos 5000 dias

Dias após sua maior venda, ainda em março de 2021, Beeple afirmou que o mercado de artes em NFTs encarava uma bolha de “exuberância irracional”. A afirmação, na época, poderia soar um tanto contraditória, mas surpreenderia até os mais ávidos fãs da tecnologia apenas alguns meses depois. Atrelada ao mercado “tradicional” de criptomoedas, a negociação dos tokens não-fungíveis também encarou severos períodos de volatilidade, prejudicando o volume internacional de vendas.

Embora tenha se beneficiado com a tecnologia, Beeple admite ao The New Yorker que não é um “fanático” por criptomoedas: “Eu já fazia arte digital muito antes dessa m**** e se toda essa m**** de NFTs desaparecesse amanhã, eu ainda estarei fazendo arte digital,” pontua, ácido. Além disso, o artista também sugeriu que suas próximas peças terão alguma utilidade, se desvinculando da “especulação crescente” no mercado.

Refletido em seu mais recente trabalho, elaborado em parceria com a cantora Madonna, o discurso de Beeple já está sendo colocado em prática com a coleção “Mother of Creation”, que direcionará seus ganhos para instituições de caridade.





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