É bem provável que você nunca tenha ouvido sobre a trupe canadense de comédia Kids in the Hall antes de ler este texto. Mas pode ter certeza: você foi impactado pelo trabalho deles na TV, em um programa que foi ao ar entre os anos de 1989 e 1995. Digo isso porque o grupo foi – e segue sendo – extremamente influente entre os diferentes projetos de comédia que exploram o humor feito em esquetes (aquelas cenas rápidas que resolvem uma situação cômica em um curto espaço de tempo).

Ou seja: se você alguma vez assistiu ao humorístico Zorra Total, da Globo, você de alguma forma viu Kids in the Hall. Se você é fã do Porta dos Fundos, certamente você também vai admirar o trabalho do Kids in the Hall (vale dizer que o próprio Porta já declarou a influência dos canadenses sobre o que eles resolveram fazer no canal).

Mas se você não conhece este cultuado programa televisivo, há uma boa notícia: quase 30 anos depois, eles estão de volta para uma nova temporada. O Amazon Prime lançou novos episódios que trazem a oportunidade de que novos fãs possam experimentar este humor que transita entre o brilhante e o besteirol, entre a crítica social e a completa falta de noção.

Quem são esses caras?

(Fonte: CBC)(Fonte: CBC)Fonte:  CBC 

Vale aqui uma introdução detalhada para os mais jovens. Kids in the Hall é um grupo de comédia iniciado em 1984 por cinco humoristas canadenses: Dave Foley, Bruce McCulloch, Kevin McDonald, Mark McKinney (que faz o Glenn na série Superstore) e Scott Thompson. Depois de algum sucesso no teatro, eles foram para a televisão, com um programa de mesmo nome, veiculado pela CBC (emissora canadense), HBO e Comedy Central (nos Estados Unidos).

Para entender um pouco por que esses caras são importantes para tantos comediantes (e também para entender a graça do programa), é preciso mergulhar na lógica dos esquetes encenados por eles. Muito influenciados pelos ingleses do grupo Monty Python, os KITH exploram um humor nonsense, com um pé no surrealismo, mas que vai se tornando mais engraçado à medida em que mergulhamos no universo que eles criam.

Ou seja: os personagens que aparecem ao longo dos programas são, quase todos, recorrentes. Há, por exemplo, uma mulher galinha que é super estridente e sexualmente hiperexcitada. Há um velho cuja diversão é ficar tentando “esmagar” a cabeça dos transeuntes com uma pinça feita com seus dedos. Há duas secretárias que ficam fofocando num escritório. Há duas estrelas de cinema (uma uruguaia e seu marido italiano meio cafetão) que sempre figuram em filmes de gosto duvidoso.

Tudo isso parece nada a ver? Pois saiba que no programa há também muita crítica que poderia entrar na linha do “humor inteligente”. Por exemplo, alguns esquetes se passam sempre numa mesma empresa burocrática, a A. T. & Love, dando a entender que o ambiente corporativo é pura enrolação. Há dois personagens policiais que talvez sejam pessoas mais burras do que se pode imaginar – sugerindo, assim, que as autoridades são bem pouco confiáveis. E há uma caricatura da rainha da Inglaterra que aparece sempre se dirigindo de maneira hilária para seus súditos canadenses, o que faz algumas considerações sobre a relação entre os dois países.

E em meio a tudo isso, há muitos (e ressalto: MUITOS) monólogos bastante engraçados feitos por cada um dos cinco atores, muitas vezes representando eles mesmos, que tecem considerações sobre temas diversos, em textos afiados que, à medida que você mergulha na lógica do show, não para mais de achar graça.

O retorno em 2022

O Amazon Prime estreou, agora em maio, a esperada sexta temporada de Kids in the Hall, dando sequência à “morte” da trupe em 1995 (o programa encerrou com eles literalmente sendo enterrados). Em sua volta triunfal, os comediantes são desenterrados e a metralha giratória já começa a disparar. Os alvos são muitos, incluindo a própria Amazon (numa piada, alguém disse que os KITH voltaram, e pergunta se quem os resgatou foi o diabo. Outro sujeito responde: “mais ou menos… O Amazon Prime”).

Produzido por Lorne Michaels (o principal nome por trás do clássico Saturday Night Live, e a pessoa que lançou os KITH), o novo programa claramente quer fazer jus ao legado que o show deixou em fãs espalhados no mundo todo.

Com isto, quero dizer que o novo Kids in the Hall revisita, de forma proposital, os principais quadros que foram trazidos e cultuados no programa original. Espere os mesmos personagens constrangedores; os mesmos recursos de comédia (como a desenvoltura em que os cinco atores se vestem de mulher e se passam por papéis totalmente diferentes, que vão desde metaleiros, crianças, a donas de casa e prostitutas); as mesmas críticas à polícia e à vida suburbana de modo geral; à mesma tiração de sarro com o jeito canadense de ser.

Além disso, as marcas essenciais de KITH seguem sendo reiteradas. Os comediantes continuam testando os limites do que se pode rir: preste atenção, por exemplo, no esquete que se passa em uma reunião da A. T. & Love feita pelo Zoom e que se desdobra de uma forma… inesperada.

E, para nosso deleite, há também uma vasta quantidade de piadas autodepreciativas com os próprios atores. Eles aproveitam como mote para o seu humor o fato de que não são mais jovenzinhos – se na época da fama de Kids in the Hall eles estavam na casa dos 30 anos, agora todos já beiram os 60. Um esquete, por exemplo, imagina uma casa de striptease masculino em que todos os dançarinos são idosos repletos de problemas – e que ainda assim deixam as mulheres bastante excitadas.

E no meio de tudo isso, há um espaço reservado para o humor escatológico – e, portanto, meio infantil. Há quadros que fazem graça com cocô, com nudez masculina, com masturbação. Tudo tão bizarro quanto cômico.

Portanto, se você é um fã de um humor inteligente, mas que não se leva tão a sério assim, dê uma chance a esses cinco canadenses e ganhe de quebra umas risadas que você não sabe nem bem explicar de onde saíram. E se você realmente gostar do programa, aproveite e assista às cinco temporadas iniciais que o Amazon Prime disponibilizou. Aposto que não vai se arrepender.



TecMundo