Discos para descobrir em casa – ‘Samba minha verdade, samba minha raiz’, Dona Ivone Lara, 1978 | Blog do Mauro Ferreira

Discos para descobrir em casa – ‘Samba minha verdade, samba minha raiz’, Dona Ivone Lara, 1978 | Blog do Mauro Ferreira


DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Samba minha verdade, samba minha raiz, Dona Ivone Lara, 1978

♪ Em 1978, Yvonne da Silva Lara (13 de abril de 1922 – 16 de abril de 2018) tinha 56 anos e já era conhecida como Dona Ivone Lara – deferência à fidalguia dessa desbravadora bamba carioca – quando teve a oportunidade de gravar e lançar o primeiro álbum solo.

Editado pela gravadora Odeon, o álbum Samba minha verdade, samba minha raiz soou como carta de princípios nobres dessa cantora e compositora que abrira alas para as mulheres no mundo do samba.

Nascida para cantar as próprias melodias, algumas sublimes, Ivone Lara lutou pacificamente para se impor como compositora em mercado e em meio social que até então davam às mulheres somente o direito de dar voz à produção masculina dos sambistas, mas lhes negavam o direito de criar – e sobretudo de assinar e cantar as próprias criações.

Compositora desde 1934, quando fez aos 12 anos o partido alto Tiê com Mestre Fuleiro (1912 – 1997) e Hélio dos Santos (1917 – 2007), Ivone Lara lutou ao longo dos anos 1940 e 1950 contra a opressão da sociedade machista – personificada pela figura do marido, Oscar Costa, morto em 1975 e desde sempre refratário ao dom para a música da mulher com quem se casara em 1947 – para poder mostrar o próprio valor no samba.

A artista começou a vencer a luta em 1965, ano em que foi admitida na ala de compositores da tradicional escola de samba Império Serrano, fundada em 1947 a partir de dissidência da agremiação intitulada Prazer da Serrinha.

Naquele ano de 1965, o Império Serrano se sagrou vice-campeã do Carnaval carioca ao desfilar com samba-enredo, Os cinco bailes da história do Rio, que trazia a assinatura de Ivone entre os autores da obra-prima do gênero.

Cinco anos depois, em 1970, Ivone Lara fez a primeira gravação em disco, registrando dois sambas que compôs com Mano Décio da Viola (1909 – 1984), Agradeço a Deus e Sem cavaco não, no álbum coletivo Sargentelli e o sambão (1970).

Contudo, a artista precisou esperar mais quatro anos para ganhar visibilidade como compositora. Essa projeção veio em 1974, ano em que Ivone enfim gravou o seminal partido alto Tiê em outro disco coletivo, Quem samba, fica? Fica, projeto fonográfico criado por Adelzon Alves, radialista que vinha desenvolvendo bem-sucedida carreira como produtor musical, tendo orquestrado em 1971 a transformação da cantora Clara Nunes (1942 – 1983) em sambista.

Através de Adelzon, aliás, Clara ouviu e gravou o samba que se tornaria o primeiro sucesso de Ivone Lara como compositora, Alvorecer, samba que batizou o aclamado LP lançado por Clara naquele ano de 1974. Obra-prima do cancioneiro de Ivone, Alvorecer foi o primeiro de muitos clássicos da parceria aberta por Ivone em 1972 com o compositor fluminense Délcio Carvalho (1939 – 2013).

Letrista pautado por escrita geralmente lírica, Delcio foi o autor de versos que se afinaram com a delicadeza das melodias de Ivone, gerando sambas embebidos em melancolia e esperança. Sambas que geralmente receitaram o otimismo e a crença na vida para vencer o desamor.

Fundamental para a consolidação da obra de Ivone Lara como compositora nos anos 1970, a parceria com Delcio Carvalho rendeu em 1976 um grande sucesso para o cantor fluminense Roberto Ribeiro (1940 – 1996), Acreditar.

Curiosamente, Ivone Lara não incluiu nem Alvorecer e muito menos Acreditar no repertório do primeiro LP solo. Produzido por Adelzon Alves, o álbum Samba minha verdade, samba minha raiz apresentou, em contrapartida, outra obra-prima da lavra de Ivone e Delcio, Em cada canto, uma esperança, composição de admirável melodia.

Samba triste que exemplificou a melancolia confiante em dias melhores (traço marcante da obra poética resultante da parceria feliz de Ivone e Delcio), Em cada canto uma esperança geraria 33 anos depois uma gravação emocionante no álbum Nosso samba tá na rua (2011), último disco de estúdio de Beth Carvalho (1946 – 2019), cantora que sempre valorizou a obra de Ivone Lara desde a primeira vez que gravou samba da compositora, Amor sem esperança, em 1975.

Tendo trabalhado como assistente social e enfermeira (profissão na qual se formou em 1942 e que lhe garantiu o sustento nos anos de luta e, a partir de 1977, uma aposentadoria vitalícia), Ivone Lara passou a se dedicar ao ofício de cantora a partir da edição deste primeiro álbum solo.

Gravado a partir de fevereiro de 1978, com arranjos de Luiz Roberto e de Nelson Martins dos Santos (1927 – 1996), o maestro Nelsinho, o álbum Samba minha verdade, samba minha raiz foi produzido por Adelzon Alves com a intenção de reproduzir a espontaneidade de rodas de samba como tantas frequentadas por Ivone nos terreiros e nos pagodes da vida – como sinalizou a foto da capa que expôs a artista ao lado de bambas como Casquinha (1922 – 2018), Manacéa (1921 – 1995) e Mestre Fuleiro em histórica imagem clicada por Ricardo de Vicq.

Aberto pelo samba Minha verdade (Ivone Lara e Delcio Carvalho, 1976), apresentado em disco há então dois anos na voz da cantora Elizeth Cardoso (1920 –1990), o disco encadeou sambas mais líricos com partidos altos e sambas de terreiros.

Os sambas líricos geralmente vieram assinados por Ivone com Delcio, casos dos belos e então inéditos Aprendi a sofrer, Espelho da vida (dos versos “O encanto que traz / O desejo de amar / São lições que aprendi vendo o mar”) e Nas sombras da vida.

Os partidos altos, Com ele é assim e Andei para curimá, vieram assinados somente por Ivone com a destreza de quem se diplomara nas quadras em que se cultivavam ritmos ancestrais como o jongo.

Já os sambas de terreiros eram de lavras de outros compositores conhecidos nas escolas e quadras dos morros cariocas, mas ignorados pelo público – como Ivone tinha sido até há poucos anos.

Introduzido por citação instrumental do samba-enredo Exaltação a Tiradentes (Mano Décio da Viola, Penteado e Estanislau Silva), com o qual o Império Serrano desfilara no Carnaval de 1949, O Império tocou reunir era samba das lavras nobres de Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira (1916 – 1972).

Da ala da Portela, igualmente nobre, Ivone gravou o samba Chegou quem faltava (Nilson Gonçalves) com a participação de Alcides Dias Lopes (1909 – 1987), creditado no encarte do LP como Seu Alcides, “malandro histórico da Portela”, em alusão ao epíteto do bamba.

O partideiro também se mostrou presente no disco (com mais destaque) na gravação de outro samba de linhagem portelense, Quando a maré (Antonio Caetano), cantado por Ivone em dueto com Alcides.

Composição que gerou o título do álbum ao ter o nome reunido com o nome da música que abriu o LP, Samba minha raiz expressou a devoção de Ivone Lara à beleza do gênero que norteou a trajetória da artista com ideologia sintetizada nas 12 faixas desse disco lançado em maio de 1978.

Ao mesmo tempo que reviu o passado de luta gloriosa, celebrando a pré-história nas quadras no majestoso samba Prazer da serrinha (Helio dos Santos e Rubens da Silva), Ivone Lara mirou o futuro nas parcerias inéditas como Delcio Carvalho.

A de maior sucesso, Sonhou meu, seria lançada por Maria Bethânia no álbum Álibi no fim daquele glorioso ano de 1978, abrindo caminhos para a continuidade da carreira fonográfica de Ivone Lara com álbuns como Sorriso de criança (1979), Sorriso negro (1981), Alegria, minha gente (Serra dos meus sonhos dourados) (1982) e Ivone Lara (1985).

A partir da segunda metade da década de 1980, a sambista foi escanteada pela indústria do disco. Contudo, dona do dom, Ivone Lara jamais perdeu o poder da criação, manifestada já nos anos 2000 em álbuns posteriores em que a compositora renovou o cancioneiro autoral, sobretudo os CDs Nasci para sonhar e cantar (2001) e Sempre a cantar (2004), com a força da imaginação criadora.

Dona Ivone Lara cantou até sair de cena, aos 96 anos, deixando obra desbravadora que espalhou beleza e poesia com mistura bem dosada de melancolia e esperança.



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